Caminho da cruz
31/03/2025A cruz finaliza o processo da Paixão do Senhor, e tem um significado profundo e misterioso, fonte de esperança para a vida dos cristãos. Expressa e confirma a evidência da missão de Jesus Cristo, enquanto Deus e enquanto Homem. É na direção dela que o cristão faz o seu próprio caminho quaresmal, na expectativa feliz e alegre da Páscoa da Ressurreição, sabendo que a vida não termina ali.
A crucificação de Cristo, numa cruz, não tirou dos cristãos a alegria. Pelo contrário, porque nela a morte foi vencida pela vida, confirmando que Deus não é Deus da morte, mas da vida. A Páscoa é alegria pelo Cristo Ressuscitado, vivo e presente nas comunidades cristãs, como afirma o Evangelho: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20).
Nos momentos de grande sofrimento do povo da antiga Aliança, Deus vinha sempre em seu socorro. Por isto, libertou-o das mãos dos Faraós do Egito. O sofrimento causa desespero e atitudes preocupantes para uma sociedade, porque desestrutura as pessoas e as deixa “sem chão”, sem esperança. Podemos imaginar o desespero do passado, que não é diferente do formato dos dias de hoje.
Entende-se a cruz numa perspectiva de total esvaziamento pessoal. Assim é possível afirmar os dizeres do apóstolo Paulo, ao citar a expressão: “Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo” (Fl 3,8). Isto choca profundamente com o pensamento e com a prática da cultura atual do consumismo, sem domínio e envernizada pelas atraentes vaidades individuais.
O cenário de fundo de toda essa realidade, mencionada acima, é mostrar o nível infinito da misericórdia de Deus. A vida das pessoas tem seus altos e baixos, tem a graça e o pecado, mas tudo culmina com a forma graciosa e generosa do agir amoroso do Senhor, sintetizada no perdão incondicional para todos aqueles que fazem o processo da conversão sugerido pelo tempo da quaresma.
Portanto, a cruz não é local de julgamento e condenação. É sim oportunidade de vida nova. Queriam apedrejar a mulher adúltera, com atitudes truculentas de feminicídio, da mesma forma que hoje está acontecendo, mas a atitude de Jesus foi totalmente outra, foi de perdão (cf. Jo 8,10-11). O que exigiu dela, para se tornar livre, foi assumir as consequências da cruz, isto é, não pecar mais.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.